calluna

rinha de galos e a bolsa amarela

esta é uma postagem em homenagem não planejada ao dia das crianças. mas que bom que calhou de combinar!

eu gosto muito de fazer associações entre coisas. às vezes percebo de imediato o porquê dessas associações surgirem na minha cabeça (e me fazerem pensar que coisas completamente abstratas são primas ou irmãs), outras vezes preciso investigar um pouco até achar o que foi que me fez pensar nessa conexão.

no campo das associações fáceis de fazer, esses dias lembrei do conto "leilão", da maría fernanda ampuero, enquanto pensava sobre o livro "a bolsa amarela", de lygia bojunga. são duas obras bem diferentes entre si: o conto da ampuero é uma história de terror visceral, enquanto o livro da lygia bojunga é uma obra voltada ao público infanto-juvenil. apesar disso, a associação direta entre os dois é o elemento brigas de galos, presente em ambas narrativas.

(1) ilustração da capa de "A bolsa amarela", Lygia Bojunga, 1976.
(2) "Rinha de galos", María Fernanda Ampuero, 2021.

em "a bolsa amarela", acompanhamos a história de raquel, uma menina que usa a bolsa-título para esconder suas grandes vontades reprimidas: a de crescer, a de ser garoto e a de ser escritora. ela também abriga na bolsa o galo afonso, um animal pacifista que fugiu de uma briga de galos.

já o conto "leilão", primeiro da antologia "rinha de galos" da ampuero, apresenta uma protagonista que passou a infância em rinhas de galos promovidas pelo pai, sendo responsável por limpar a arena após as lutas; e, infelizmente, sofrendo abusos dos homens que frequentavam as rinhas.

Meu pai criava galos de briga e, como não tinha com quem me deixar, me levava às rinhas. Das primeiras vezes, eu chorava ao ver o galinho desnorteado na arena, e ele ria e me chamava de mulherzinha. À noite, galos gigantes, vampiros, devoravam minhas tripas, eu gritava, e ele vinha à minha cama e voltava a me chamar de mulherzinha. [...] Depois eu já não chorava [...]. Eu lhes dizia: adeus, galinho, seja feliz no céu onde há milhares de minhocas e campo e milho e famílias que amam os galinhos.
— Leilão, María Fernanda Ampuero.

numa tentativa de subverter a crueldade do mundo através do seu desejo de ser escritora, raquel também dá um jeito de pensar num futuro outro para um galo que provavelmente morreu de forma brutal numa rinha, conforme lhe conta afonso. através da escrita, ela não deseja que ele seja feliz no céu com comida e amor, como faz a protagonista já meio anestesiada pela violência no conto da ampuero. ao invés disso, escreve uma versão da história em que ele pôde ser feliz de outro jeito: sendo livre.

e raquel tem aquele desejo de ser menino, no início da história, justamente porque percebe muito cedo que o mundo dá aos garotos a liberdade que exige que ela reprima. ser menino, na cabeça dela, é ter o direito de existir e de se expressar. essa questão de gênero, em "leilão", aparece de forma muito mais crua, visceral — repetindo esse adjetivo porque sei que a ampuero gosta dele.

por fim, dando uma olhada nos trechos de "a bolsa amarela" que destaquei na minha última leitura, uns cinco anos atrás, encontrei um com o qual estou me identificando atualmente (o que deixaria a minha versão criança orgulhosa!):

Acabei até mudando de ideia: resolvi que se eu queria escrever qualquer coisa eu devia escrever e pronto. Carta, romancinho, telegrama, o que me dava na cabeça. Queriam rir de mim? Paciência. Melhor rirem de mim do que carregar aquele peso dentro da bolsa amarela.
— A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga.
tchau!!!
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